Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, registrou em mensagens trocadas com seu cunhado Fabiano Zettel uma sequência de pressões financeiras que giravam em torno de repasses ao resort Tayayá, no Paraná, empreendimento ligado à família do ministro Dias Toffoli.
As conversas, extraídas do celular apreendido pela Polícia Federal durante operação que investiga o colapso financeiro do banco, mostram Vorcaro reclamando repetidamente de cobranças insistentes. Em um dos trechos centrais, ele escreve: “Tayayá – 15. Paga tudo hoje. Não aguento mais esse puta problema”. O “15” refere-se a R$ 15 milhões, valor que, segundo o próprio Vorcaro, estava sendo exigido para quitar pendências relacionadas ao resort.
O total mencionado nas mensagens chega a R$ 35 milhões em aportes ou pagamentos acumulados. Vorcaro descreve a situação como “um inferno” e afirma que os valores eram cobrados com urgência, inclusive com ameaças veladas de complicações maiores caso o pagamento não fosse imediato. Ele questiona o cunhado: “Por que ainda cobram se a venda já foi feita?”, sugerindo que o negócio societário já teria sido concluído, mas as cobranças continuavam.
O resort Tayayá foi adquirido em parte por uma empresa familiar de Toffoli, a Maridt Investimentos, que dividia sociedade com irmãos do ministro e com o apresentador Carlos Massa (Ratinho). Em 2021, uma fatia societária foi vendida por R$ 6,6 milhões a um fundo de investimento ligado a Vorcaro. Apesar da transação ter sido declarada à Receita Federal e ao cartório de registro, as mensagens de 2024 indicam que repasses adicionais ainda eram exigidos, o que levanta a hipótese de aportes posteriores ou de acertos paralelos não formalizados.
Vorcaro relata que os pagamentos eram feitos por meio de empresas interpostas ou contas de terceiros, com justificativas de “consultoria” ou “serviços de gestão”. Ele menciona explicitamente que parte do dinheiro saía de operações do Banco Master, banco que enfrentava dificuldades regulatórias e fiscais na época das conversas. Em outro trecho, ele escreve: “Eles querem mais 20 agora. Isso não acaba nunca”, reforçando a percepção de que os valores iam além do inicialmente combinado na venda societária.
O relato não identifica diretamente quem fazia as cobranças, mas o contexto das mensagens aponta para pessoas próximas ao grupo controlador do resort. Vorcaro chega a dizer ao cunhado: “Fala com eles que já mandei o que podia. Se quiserem mais, que procurem outro trouxa”. A linguagem revela frustração e sensação de extorsão velada, embora não haja, nas mensagens conhecidas, menção explícita a chantagem ou ameaça direta.
O que se sabe além das mensagens: a PF incluiu esses diálogos no inquérito que apura lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta e associação criminosa no Banco Master. O rombo estimado ultrapassa R$ 20 bilhões, com prejuízos a milhares de investidores e correntistas. Toffoli, ao ser questionado sobre a sociedade no Tayayá, confirmou a participação via empresa familiar, mas negou qualquer recebimento direto de Vorcaro ou irregularidade na venda. Ele destacou que os valores foram declarados e que a transação ocorreu em preço de mercado.
A saída de Toffoli da relatoria do processo envolvendo o Banco Master, decidida internamente no STF, alimentou especulações sobre suspeição. O caso foi redistribuído, mas os autos permanecem sob sigilo parcial, impedindo acesso público aos detalhes completos da extração das mensagens.
O impacto político e institucional é imediato: um ministro do Supremo com sociedade em empreendimento que recebe repasses de um banqueiro investigado por bilionário esquema de pirâmide financeira cria uma narrativa de conflito de interesses impossível de ignorar. Em 2026, ano de eleições presidenciais, o episódio fortalece discursos de oposição que acusam o Judiciário de proteger aliados políticos e financeiros.
Vorcaro, até o momento, não formalizou delação premiada, mas as mensagens já vazadas funcionam como prova documental de primeira linha. Se ele optar por colaborar, os detalhes sobre quem cobrava, por qual motivo e com qual frequência podem transformar uma mera sociedade imobiliária em peça central de um esquema maior de influência e favorecimento.
O resort Tayayá continua operando normalmente. As cobranças relatadas por Vorcaro, no entanto, deixaram de ser apenas conversa privada: tornaram-se o fio que, se puxado com força, pode desmontar a imagem de imparcialidade de uma das figuras mais poderosas do Judiciário brasileiro.