O escândalo envolvendo o Banco Master, controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, já é considerado um dos maiores casos de fraude financeira da história recente do Brasil. O que começou como uma tentativa de venda de carteiras de crédito bilionárias ao Banco de Brasília (BRB) evoluiu para uma investigação multifacetada que atinge o sistema financeiro, o Congresso, o Supremo Tribunal Federal e até o Palácio do Planalto. Até esta quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026, as apurações avançam em várias frentes, com novos inquéritos, depoimentos adiados e protestos nas ruas. Vamos aos fatos conhecidos até agora, organizados cronologicamente e por temas principais.
Tudo começou em 2018, quando Vorcaro, economista formado pelo IBMEC, adquiriu o Banco Máxima e o transformou no Banco Master em 2021. A instituição cresceu rapidamente, atraindo mais de 1,6 milhão de clientes com CDBs que rendiam até 140% do CDI — bem acima da média do mercado. Em 2024, o banco comprou o Will Bank, que acabou liquidado pelo Banco Central em janeiro de 2026, afetando cerca de 800 mil investidores. O patrimônio do Master saltou de R$ 3,7 bilhões em 2019 para R$ 82 bilhões em 2024, com parcerias como a Reag Investimentos, gestora de fundos como D Mais, Bravo, High Tower e Brain Cash — todos liquidados pelo BC no início deste ano.
O ponto de ruptura veio em 2025. Em março, o BRB anunciou intenção de comprar o Master. Em setembro, o Cade e a Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovaram a operação, mas o Banco Central barrou o negócio, alegando graves violações e crise de liquidez. O BC já monitorava o Master desde dezembro de 2023 por risco de liquidez. Em novembro de 2025, decretou a liquidação extrajudicial, citando emissão de títulos sem lastro e irregularidades contábeis. Naquele mês, a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, com prisões temporárias de Vorcaro (solto após 12 dias com tornozeleira eletrônica), seu cunhado Fabiano Zettel (detido ao tentar embarcar para os Emirados Árabes) e outros diretores como Augusto Ferreira Lima e Luiz Antônio Bull. A PF bloqueou R$ 5,7 bilhões em bens, incluindo carros de luxo, relógios e armas.
A investigação revelou que o Master teria tentado vender carteiras de crédito de R$ 12,2 a R$ 12,7 bilhões ao BRB — muitas sem lastro real, simuladas por empresas de fachada como Tirreno Consultoria, One World Services e Super Empreendimentos. O rombo potencial chega a R$ 41–47 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que deve reembolsar R$ 41 bilhões aos clientes a partir de 2026. Outra frente envolve mais de 324 mil contratos de empréstimos consignados irregulares com 251 mil aposentados e pensionistas do INSS, levando à suspensão de repasses e bloqueio de R$ 2 bilhões. Recursos teriam sido desviados via 36 empresas suspeitas, totalizando R$ 11,5 bilhões entre 2023 e 2024, com operações de câmbio de R$ 2,8 bilhões sob suspeita de lavagem para o PCC (Operação Carbono Oculto) e até Hezbollah.
A teia se estende a fundos da Reag, administrados por João Carlos Mansur, que inflariam patrimônio com títulos podres do extinto Besc. Recentemente, o BRB anunciou que Mansur detém 4,5% de suas ações via fundos como o Borneo. Auditorias apontam indícios de que Vorcaro, ex-sócios e a Reag aportaram cerca de R$ 1 bilhão no BRB para alavancar compras de carteiras do Master. A PF abriu novo inquérito em fevereiro de 2026 para apurar gestão fraudulenta no BRB, além da compra vetada.
No âmbito político, o caso ganhou contornos explosivos. Vorcaro se reuniu 17 vezes com o presidente do BC, Gabriel Galípolo, e diretores em 2025, inclusive em outubro, pouco antes da liquidação. Encontros fora da agenda com o presidente Lula foram confirmados — o próprio Lula disse que Vorcaro reclamou de "perseguição" e que a reunião contou com Guido Mantega, Rui Costa e Galípolo. Outras conexões incluem Ricardo Lewandowski (cujo escritório recebeu valores ligados ao caso), Jaques Wagner, Ciro Nogueira, Antonio Rueda, Michel Temer e Rodrigo Pacheco. No STF, Dias Toffoli é relator de três frentes: a tentativa de compra pelo BRB, fraudes via fundos e suposta campanha contra o BC nas redes. Toffoli decretou sigilo elevado, ordenou acareações entre Vorcaro e Paulo Henrique Costa (ex-presidente do BRB), limitou perícias e indicou peritos da PF. Alexandre de Moraes aparece em relatos de contrato de R$ 129 milhões com o escritório de sua esposa e encontros na mansão de Vorcaro.
No Congresso, a CPMI do INSS, presidida por Carlos Viana (Podemos-MG), discute o caso, mas retirou da pauta quebra de sigilo total do Master por fugir do foco em consignados. Vorcaro, em prisão domiciliar, teve depoimento adiado para 26 de fevereiro. Uma subcomissão na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, instalada em 4 de fevereiro e presidida por Renan Calheiros, acompanha as fraudes. Pedidos de CPI na Câmara (com 201 assinaturas) e impeachment contra o governador Ibaneis Rocha (MDB-DF) tramitam na CLDF.
Repercussões continuam. O BRB provisionou mais de R$ 5 bilhões para cobrir perdas e colocou à venda ativos do Master. Protestos do MBL ocorreram em São Paulo nesta quinta-feira, cobrando delação de Vorcaro e criticando Toffoli e Moraes. A PF investiga grupo Fictor (que tentou comprar o Master na véspera da liquidação), suposta campanha paga contra o BC e rede de fundos ligada a Ascendino Madureira Garcia ("Dino"), operador de Vorcaro. Vorcaro acusa BC e rivais de conspiração para tirá-lo do mercado.
O que se sabe até aqui é que o rombo bilionário afeta aposentados, fundos públicos e o próprio sistema financeiro. A expectativa é que investigações no STF avancem até março, mas novas revelações surgem quase diariamente. O que isso revela sobre a fiscalização do sistema bancário brasileiro? Como as conexões políticas influenciam decisões regulatórias? E qual o custo real para a sociedade quando um banco colapsa dessa forma? Essas são perguntas que seguem abertas, enquanto o caso continua a se desdobrar.