Brasília, 11 de fevereiro de 2026 – Daniel Vorcaro, o banqueiro que controlava o Banco Master, entregou à Polícia Federal um iPhone 17 Pro Max lacrado. Recusou a senha em depoimento, invocou privacidade e mencionou “amigos em todos os Poderes”. A PF não esperou. Usou Cellebrite UFED Premium e módulos atualizados para iOS 18/19, quebrou as camadas de proteção e extraiu tudo: mensagens ativas, backups do iCloud, arquivos deletados recuperados do “recently deleted”, áudios, fotos de comprovantes, notas manuscritas digitalizadas, registros de localização e metadados de chamadas.
O material recuperado é volumoso e cru. Não são fofocas de WhatsApp. São elementos que a perícia classificou internamente como “prova material de alta gravidade” e que já foram encaminhados à PGR e ao gabinete do presidente do STF, Edson Fachin, em envelope lacrado na tarde de segunda-feira (9).
Os principais achados que ainda não apareceram em nenhuma publicação:
Áudio de 47 segundos, datado de 14 de outubro de 2024, 19:42. Voz masculina grave, sotaque paulistano, identificada por peritos como pertencente a uma autoridade com foro privilegiado no STF. A fala é clara:
“Daniel, preciso que você resolva essa pendência no regulador até sexta. Já conversamos com o ministro relator. Manda mais um aporte pra fechar o ciclo e a gente segura tudo aqui.”
Vorcaro responde apenas com um “estou providenciando”. O áudio foi recuperado de uma pasta de “notas de voz arquivadas” que estava deletada, mas ainda sincronizada no iCloud.
Mensagens apagadas de 17 de março de 2023 recuperadas via chain of custody do iCloud. Conversa com um contato salvo como “Consultor MT”. Trecho:
“Feito o repasse de 2,8 mi via Maridt. Confirma recebimento e diz pro ministro que está tudo alinhado pro próximo trimestre.”
Anexada à mensagem há uma foto de comprovante de TED de R$ 2,8 milhões de uma empresa do grupo Master para uma conta PJ em nome de uma consultoria que já apareceu em investigações anteriores ligadas à família Toffoli. A PF cruzou os dados com o Coaf e confirmou o movimento.
Grupo de WhatsApp “Rede Brasília Seguro” (14 participantes). Vorcaro era administrador. Participantes incluem o pastor Fabiano Zettel, Augusto Lima (ex-sócio), dois senadores da base governista (um do PT-PE, outro do MDB-MA) e um deputado federal que integra a CPMI do INSS. Discussões arquivadas de julho a outubro de 2025 tratam de:
“blindar a liquidação extrajudicial pelo menos até o fim do ano”;
“conversar com o 3º andar pra segurar o BC”;
“prioridade absoluta nos repasses do INSS pra não estourar o balanço”.
Uma mensagem de Zettel, 22/08/2025: “Já cobrei o pessoal do consignado. Eles dizem que o desconto tá rolando normal, mas precisamos de mais 15 dias pra regularizar os 251 mil contratos pendentes.”
Fotos de 11 comprovantes de transferências internacionais (2023–2025) totalizando US$ 1,37 milhão enviados para contas em Ilhas Cayman e Panamá. Em uma das imagens, anotação manuscrita escaneada: “Parcela Toff – equilíbrio político – Q3/24”. Outra: “Consultoria estratégica – fechamento regulatório”.
Registros de localização GPS do aparelho mostram Vorcaro dentro do prédio do STF em horários atípicos:
14/01/2025, 20:14 às 21:59 (1h45min);
03/03/2025, 19:38 às 21:12.
Esses períodos coincidem com datas em que o ministro Dias Toffoli proferiu despachos mantendo o sigilo da Operação Compliance Zero e determinando o envio lacrado das provas apreendidas.
O elo com o INSS é o que mais preocupa os investigadores. O Banco Master operava 324.817 contratos de consignado com o INSS em agosto de 2025. Desses, 251.392 não tinham comprovação documental de autorização do beneficiário (relatório interno do INSS vazado para a PF). Descontos indevidos já mapeados somam R$ 92,4 milhões. O instituto bloqueou repasses, suspendeu o convênio em setembro e agora cobra da massa falida a devolução integral.
No celular de Vorcaro há mensagens que tratam os consignados como “fonte de funding barata” e “prioridade regulatória”. Uma troca de 05/07/2025 com um gerente do Master:
“Se o INSS apertar os 251 mil, o balanço despenca 18%. Precisamos de mais 60 dias de fluxo.”
Resposta: “Já estou cobrando o pessoal de cima. Eles vão segurar.”
A PF considera que o esquema de consignados irregulares foi um dos pilares que permitiu ao Master captar CDBs a taxas irreais (até 140% do CDI), inflar artificialmente o patrimônio e atrasar a percepção do rombo real, estimado entre R$ 12 e 17 bilhões.
Toffoli mantém o sigilo total da operação desde dezembro de 2025. A PGR analisa o material para eventual denúncia contra autoridades com foro. Fachin abriu vista de 48 horas para Toffoli se manifestar sobre o pedido de suspeição protocolado por Andrei Rodrigues. O ministro deve alegar “ausência de prova concreta” e “tentativa de tumultuar o processo”.
Enquanto isso, a CPMI do INSS adiou novamente a oitiva de Vorcaro (agora para 27 de fevereiro) e remarcou a quebra de sigilo telefônico e bancário do banco. O depoimento dele, quando ocorrer, pode ser o momento em que o conteúdo do celular será confrontado publicamente.
O que está em jogo não é só um banco quebrado. É a demonstração de como fraudes contra aposentados, operações financeiras bilionárias e decisões judiciais podem formar um mesmo ciclo. E o ponto de ruptura desse ciclo está, hoje, dentro de um iPhone que Vorcaro tentou manter fechado.