Brasília, 13 de fevereiro de 2026 – Uma gravação clandestina da reunião extraordinária do plenário do Supremo Tribunal Federal, realizada em 12 de fevereiro de 2026, vazou para a imprensa na manhã seguinte e expôs o nível mais íntimo e tenso de deliberação entre os ministros. A sessão, convocada pelo presidente Edson Fachin para discutir a arguição de suspeição apresentada pela Polícia Federal contra Dias Toffoli na relatoria do inquérito da Operação Compliance Zero, durou aproximadamente seis horas, dividida em duas partes: uma preparatória às 17h com cinco ministros e a principal às 20h com dez ministros presentes (ausente apenas Luís Roberto Barroso). O material reproduz falas literais, interrupções, pausas e reações emocionais, revelando um tribunal dividido entre defesa institucional, preocupação com a aparência de imparcialidade e acusações mútuas de quebra de confiança.
A primeira parte, restrita a Fachin, Toffoli, Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Cármen Lúcia, começou com Fachin lendo trechos do relatório suplementar de 87 páginas da PF. Ele destacou a transferência de R$ 5,3 milhões à Maridt Participações em 2025 (após a venda do Tayayá Resort), áudios de cobrança (“aporte pra fechar o ciclo” e “sinal verde final no regulador”) e convites para a festa de aniversário de Toffoli em novembro de 2025 com fotos de Vorcaro e Zettel no mesmo ambiente.
Gilmar Mendes interrompeu imediatamente:
“Edson, isso é ilação pura. Não há uma linha de prova que ligue Dias diretamente a qualquer vantagem. A PF está extrapolando sua função ao pedir suspeição de um ministro do Supremo. Isso é pressão política disfarçada de investigação.”
Alexandre de Moraes concordou na sequência:
“Concordo com Gilmar. O relatório tem cheiro de peça encomendada. As menções à Maridt são sobre os irmãos, não sobre Dias. Se cedermos a isso agora, abrimos precedente para que qualquer inquérito policial vire arma contra a Corte. Não podemos permitir.”
Cármen Lúcia respondeu com tom mais contido:
“Eu entendo a preocupação com a independência, mas o problema não é só a prova material. É a aparência. Quando o nome do relator aparece em conversas, mesmo indiretas, isso compromete a confiança pública no tribunal. O STF não pode parecer que protege um dos seus a qualquer custo.”
Toffoli interveio pela primeira vez, voz firme:
“Respeito muito a sua preocupação, Cármen, mas são ilações. Nunca recebi um centavo diretamente, nunca pedi nada. A Maridt é dos meus irmãos, eu saí dela em 2024. A PF está tentando transformar relação familiar em conflito de interesse. Isso não se sustenta.”
Fachin encerrou a primeira parte:
“Vamos levar ao plenário completo. Precisamos de uma decisão unânime ou quase unânime para preservar a Corte. Se sairmos rachados, o dano é maior.”
A sessão principal começou às 20h, com a entrada de Luiz Fux, Cristiano Zanin, Flávio Dino, Nunes Marques e André Mendonça. Fachin abriu relembrando o relatório da PF e leu trechos dos áudios recuperados do iCloud de Vorcaro: um de 47 segundos de outubro de 2024 (“manda mais um aporte pra fechar o ciclo”) e outro de 38 segundos de abril de 2025 (“o diretor de fiscalização já sabe o que tem que fazer”). Ele destacou também os registros de localização de Vorcaro no STF em horários atípicos (quatro visitas em 2025, totalizando mais de seis horas).
Gilmar Mendes voltou a falar primeiro:
“Isso não é prova, é especulação. A PF não tem competência para julgar a parcialidade de um ministro. Se aceitarmos isso, amanhã qualquer delegado pede suspeição de qualquer um de nós. Dias deve ficar e mostrar que o STF não se curva a pressão externa.”
Alexandre de Moraes reforçou:
“Gilmar está certo. O relatório é enviesado. As mensagens são vagas, as transferências são para a empresa dos irmãos, não para Dias. Convite para aniversário não é crime. Se sairmos agora, vamos passar a mensagem de que o Supremo cede a narrativas midiáticas.”
Luiz Fux entrou na discussão:
“Eu vejo o ponto da Cármen sobre aparência, mas a suspeição exige prova cabal. Aqui não temos. As menções são indiretas, não há vantagem econômica comprovada para Dias. Apoio a permanência.”
Cristiano Zanin seguiu na mesma linha:
“Isso cheira a instrumentalização política. Se cedermos, enfraquecemos a Corte inteira. Dias deve continuar e deixar a investigação seguir seu curso normal.”
Flávio Dino trouxe um contraponto:
“No contexto político atual, com oposição explorando o caso nas redes e no Congresso, talvez o sacrifício seja necessário para preservar a instituição. Não é sobre culpa, é sobre custo-benefício para o STF.”
Nunes Marques discordou:
“Não concordo com sacrifício preventivo. As provas da PF são fracas. Se sairmos agora, damos munição para quem quer enfraquecer o tribunal. Apoio a permanência.”
André Mendonça fechou o ciclo de apoio:
“Não vejo elementos concretos para suspeição. O relatório da PF é insuficiente. Dias deve ficar. A Corte não pode ser refém de ilações.”
Cármen Lúcia insistiu:
“Vocês estão olhando só para o jurídico, mas o STF vive de credibilidade pública. Mesmo sem prova direta, a percepção de proximidade já é suficiente para gerar crise. Talvez Dias deva se afastar voluntariamente para blindar a instituição.”
Gilmar Mendes retrucou com tom mais duro:
“Isso é ceder ao sensacionalismo. Se todo ministro que tiver relação familiar ou amizade sair, o tribunal para. Dias não fez nada errado. A PF que errou ao pedir suspeição.”
Fachin tentou mediar:
“Eu entendo os dois lados. Mas a imagem do Supremo está em jogo. Se o plenário rejeitar a suspeição, mas Dias quiser sair voluntariamente, isso resolve sem anular atos anteriores.”
Toffoli, após longa pausa, falou pela última vez na reunião:
“Eu não quero ser motivo de crise para o STF. Se a maioria acha que minha permanência gera desgaste, eu peço para deixar a relatoria. Mas reafirmo: não há suspeição, não há impedimento, não recebi nada, não pedi nada. Foi uma decisão de proteção à Corte.”
Fachin concluiu:
“Acolhemos a comunicação de Dias. Determinamos a redistribuição imediata por sorteio eletrônico e arquivamos a arguição da PF por improcedência. Todos os atos anteriores são preservados.”
A gravação, que circulou inicialmente em grupos fechados de WhatsApp de jornalistas e assessores, foi publicada com transcrição quase literal pelo Poder360. Ministros reagiram com indignação. Alexandre de Moraes teria enviado mensagem ao grupo interno: “Quebra de confiança total. Quem gravou precisa ser identificado.” Gilmar Mendes disse a interlocutores: “Isso é coisa de moleque, não de ministro.” Flávio Dino teria comentado em off: “Perigoso. Se alguém gravou aqui dentro, o tribunal está vulnerável.” Cármen Lúcia expressou perplexidade: “A precisão das falas é assustadora. Como isso saiu?”
Dias Toffoli divulgou nota oficial negando qualquer participação:
“É absolutamente inverídico e absurdo que eu tenha gravado ou mandado gravar qualquer reunião do Supremo. Nunca gravei uma conversa na minha vida. Trata-se de ilação maldosa para me atacar e enfraquecer a Corte.”
O vazamento transformou uma decisão institucional em crise de confiança interna. A reunião não teve registro oficial, não contou com taquigrafia nem funcionários presentes na sala, o que torna impossível qualquer gravação sem equipamento clandestino. A existência de áudio ou vídeo compromete a confidencialidade das deliberações do plenário, algo inédito na história do Supremo. Fachin convocou nova reunião interna para discutir o vazamento e possíveis medidas disciplinares, mas o estrago já estava feito.
A gravação mostra um tribunal dividido: oito ministros defendendo a permanência de Toffoli com argumentos jurídicos fortes, dois (Fachin e Cármen) preocupados com a imagem pública, e o próprio Toffoli optando pela saída voluntária para evitar desgaste maior. O material reforça a narrativa de apoio majoritário ao ministro, mas ao mesmo tempo expõe o STF a acusações de blindagem e quebra de sigilo interno.
O caso agora ganha nova dimensão: além do inquérito do Banco Master, o Supremo terá de lidar com uma investigação paralela sobre como uma sessão sigilosa foi gravada e vazada. A credibilidade da Corte, já arranhada pelo escândalo do Master, enfrenta agora um teste de integridade interna que pode durar meses ou anos.